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14 outubro, 2010

República Fundamentalista Cristã


República Fundamentalista Cristã;
por VLADIMIR SAFATLE

FUNDADA EM 31 de outubro de 2010 após a expulsão dos infiéis do poder, a República Fundamentalista Cristã do Brasil apareceu em substituição à República Federativa do Brasil. Dela, ela herdou quase tudo, acrescentando uma importante novidade institucional: um poder moderador, pairando acima dos outros Três Poderes e composto pela ala conservadora do catolicismo em aliança com certos setores protestantes. Os mesmos setores que, nos EUA, deram suporte canino a George W. Bush. A função deste poder moderador consiste em vigiar o debate político e social, impedindo que pautas de modernização social já efetivadas em todos os países desenvolvidos cheguem ao Brasil.

Na verdade, a fundação desta nova República começou após uma eleição impulsionada pelo problema do aborto. Procurando uma tábua de salvação para uma candidatura que nunca decolara e que passou ao segundo turno exclusivamente por obra e graça de Marina Silva, José Serra resolveu inovar na política brasileira ao instrumentalizar politicamente os dogmas mais arcaicos deste que é o maior país católico do mundo.

Assim, sua mulher foi despachada pelos quatro cantos para alertar a população contra o fato de Dilma Rousseff apoiar “matar criancinhas” (conforme noticiou um jornal que declarou apoio explícito a seu marido). As portas de seu comitê de campanha foram abertas para os voluntários da TFP, com seus folhetos contra a “ameaça vermelha” capaz de perverter a família brasileira através da legalização da prostituição e do casamento gay (conforme noticiou o blog do jornalista Fernando Rodrigues). A internet foi invadida por mensagens “espontâneas” contra a infiel Dilma e o PNDH-3.

José Serra já havia dado a senha quando afirmou, em um debate, que legalizar o aborto seria uma “carnificina”. Que 15% das mulheres brasileiras entre 18 e 39 anos tenham abortado em condições indescritíveis, isto não era “carnificina”. Carnificina, para Serra, seria o Brasil importar esta prática tão presente na vida dos “bárbaros selvagens” que são os ingleses, franceses, alemães, norte-americanos, espanhóis, italianos, ou seja, todos para quem o aborto é, pasmem, uma questão de saúde pública e planejamento familiar.

Confrontada com esta guinada, a “classe média esclarecida” não se indignou. As clínicas privadas que fazem abortos ilegais continuariam funcionando. O direito sagrado de salvar a filha de classe média de uma gravidez indesejada continuaria intacto. Para tal classe, o discurso sobre “valores cristãos” era apenas uma radicalização eleitoral.

Quando o poder moderador, confiante em sua nova força, começou a exigir que o criacionismo fosse ensinado nas escolas, que o Estado subvencionasse atividades de proselitismo religioso travestidas de filantropia, já era tarde. Então, alguns lembraram, com tristeza, dos pais fundadores da República Federativa do Brasil, decididos a criar uma república laica onde os dogmas religiosos não seriam balizas da vida social. Uma república onde seria possível dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Uma República que morreu no dia 31 de outubro de 2010.

VLADIMIR SAFATLE é professor no departamento de filosofia da USP.

10 outubro, 2010

Em defesa da vida e nas entrelinhas regredindo anos e anos no processo democrático



Um dos temas mais citados nesse recém começado segundo turno é a afirmação generalista de defesa da vida. O que tem por trás desta assertiva? Bom, aqui, é nítido que se trata da defesa específica de ser contra o aborto, devido a confusos valores cristãos e morais.

Pois bem poderíamos dizer que ser em defesa da vida tange ser a favor de uma reforma agrária ampla e contra o latifúndio. Ser em defesa da vida poderia ser fávoravel a distribuição irrestrita e ampla das riquezas, a oportunidade de conhecimento igual a todos. Pois bem, isso também é óbvio, e acaba por nos colocar no campo da retórica.

Cada um usará a defesa da vida em defesa dos seus interesses de vida. E cada classe usará sua defesa de vida, como a defesa de via de sua própria classe.

Isso é sabido.

Porém, todavia, entretanto o que se coloca nesse pleito é a regressão de anos e anos de um debate difícil e necessário que tem ser feito. O direito da escolha da mulher a decidir sobre teu próprio corpo e sobre seu próprio destino. A questão colocada sobre o aborto, além de ser uma questão de saúde pública e um fato real, é um questão que se relaciona diretamente com o papel da mulher da sociedade capitalista. Vista como propriedade, como ventre, como indispensável na divisão do trabalho por ocupar trabalhos de mulher, é ainda complexo para nossa sociedade pensar além das missas e cultos dominicais.

A luta pela legalização do aborto está historicamente associada ao combate em torno do das liberdades democráticas, à tradição do movimento dos trabalhadores e trabalhadoras. O controle do corpo, da sexualidade e da reprodução pertence exclusivamente às mulheres. Negar este direito é mantê-las como “pessoas de 2ª categoria”, cuja sexualidade tem como finalidade apenas a reprodução.

Há de garantir o debate sobre o direito de cada mulher decidir sobre o seu próprio corpo a partir de suas próprias crenças, princípios, motivos, de acordo com as suas condições. Sem ser obrigada a seguir o que diz qualquer instituição ou religião. Que se debata uma legislação a qual permita à mulher exercer o seu direito de escolha, e ofereça condições clínicas e de menores riscos para aquelas na iminência de recorrer a um aborto.

O aborto clandestino põe em risco a vida e o futuro reprodutivo da mulher. Cerca de 250 mil são internadas anualmente por complicações associadas ao abortamento clandestino, a maioria adolescentes. E são as trabalhadoras e a juventude da periferia que mais sofrem com essa situação.

Em defesa da vida!

05 outubro, 2010

Por que vamos ao 2º turno?

Abaixo, posto o trecho inicial de importante reflexão de um corrente interna do PT (O Trabalho) sobre as eleições 2010 e seu 2º turno
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Reflexão inicial sobre as eleições de 2010:

Por que vamos ao 2º turno?

O resultado das urnas não deixa dúvida de que o povo não quer a volta do PSDB. Mas por que uma eleição presidencial que parecia ganha vai para o 2º turno?

O povo trabalhador reafirmou a vontade de ver adotadas as medidas esperadas desde a eleição de Lula, já fazem 8 anos, tais como a reforma agrária, a jornada de 40 horas, o restabelecimento do monopólio estatal do petróleo e o fim do superávit primário. Afinal, 48 milhões de eleitores colocaram a candidata do PT a presidente, Dilma Roussef, à frente do 1º turno com 47% dos votos, e no mesmo impulso deram ao PT a maior bancada da Câmara de Deputados. As urnas derrotaram e amputaram as bancadas privatistas e pró-imperialistas do PSDB-DEM no Congresso.

Diante deste quadro, que inclui a rejeição a Serra, a mídia e setores da classe dominante, se valeram de ataques brutais e manipulações para inflar a candidatura de Marina, ex-ministra de Lula, e assim cavar o 2º turno presidencial (a mídia fala de “onda verde”, mas esconde a estagnação das bancadas do PV).

E como a direção da campanha petista reagiu a esta situação? Poupou Marina e não respondeu à ofensiva contra a candidatura de Dilma, o PT e a classe trabalhadora. É preciso dizer, haverá 2º turno porque a direção do PT não convocou a militância à mobilização com base das suas bandeiras, e conciliou quando devia polarizar.

A própria candidata Dilma que se esquivou na campanha de assumir compromissos com os trabalhadores, no dia do último comício em SP, recebeu a carta de mais 5200 petistas, dezenas de candidatos inclusive 9 deputados federais e 8 estaduais, por um compromisso com as 40 horas e a atualização do índice de produtividade da terra, mas só respondeu que vai “estudar” o assunto.

Assim, a direção deixou o terreno para que Marina aparecesse como alternativa. O desarme político e a passividade é, agora, o maior perigo.

Aprender a lição de 2006!

Nas últimas semanas, o presidente da FIESP iniciou uma gritaria contra o “exagero” dos aumentos salariais de 5%, seguido pela Febraban (a Federação dos Bancos) que provocou uma greve nacional dos bancários, e foi apoiado até pela direção do Banco Central nomeada pelo governo – como isso é possível?

Ao mesmo tempo, o PSDB-DEM que não podiam defender abertamente seu programa de “ajuste fiscal”, cortes de gastos e privatizações, passaram a inventar “ameaças a democracia” e, através de bispos, padres e pastores, manipularam convicções religiosas de setores do povo.

Sim, esses são recursos que os setores pró-imperialistas também usaram na Venezuela, sem temer ir até ameaças golpistas, como ocorreu na semana passada no Equador.

Mas é possível derrotá-los! É tempo ainda no 2º turno de ouvir os trabalhadores e os movimentos sociais!

É mais que hora de assumir os compromissos que o povo trabalhador espera!

De fato, nada é mais poderoso que a militância do Partido, mobilizada. Este é o caminho para vencer no 2º turno e governar.

Por que não seguir este caminho? Por causa da “aliança nacional” do PMDB?

Mas a eleição de governador em Minas Gerais, onde o PT atolou no apoio a Hélio Costa do PMDB, privatizador dos Correios, deveria servir de lição. Na verdade, em Estados importantes como no Rio Grande do Sul e na Bahia, o PT venceu enfrentando o PMDB!

Não vamos deixar para Serra o terreno das propostas concretas para o salário mínimo e as aposentadorias.

O caminho da vitória no 2º turno passa pelo compromisso com as medidas que atendem as reivindicações populares

04 outubro, 2010

Dilema (weberiano) Contemporâneo? Convicção ou Responsabilidade?















criação, concepção e traços de juliana freitas (@ju_freitas)

Hora da Direção Nacional do PT aprender!


minas ensina! minas aponta o caminho!

fazer com que o PT votasse em Hélio Costa em MG tinha um único sentido e uma única previsão: a tal governabilidade e derrota na certa. o que se viu ontem com os números foi a confirmação da segunda perspectiva: uma derrota significativa para o candidato de aécio que alcançou os quase 63%. derrota maior ainda se vermos que Dilma em MG obteve 46,98% dos votos contra os 30,76% de Serra.

o resultado do Maranhão também tem suas lições. A imposição da DNPT de que seus militantes apoiem Roseana Sarney, em mais um exemplo de sufocamento democrático petista, levou a uma vitória apertada da candidata (com o candidato do PCdoB, Flavio Dino quase indo para o 2 turno, inclsuive com apoio de vários petistas) e um indice altíssimo de abstenção (http://www1.folha.uol.com.br/poder/809547-recorde-de-abstencoes-ocorre-no-maranhao-onde-roseana-venceu-por-008-dos-votos.shtml)

Marina nas Alturas!


hoje pela manhã antes de me lançar a mais um dia de labuta assitia os comentários de Alexandre Garcia e Míriam Leitão a respeito de Marina Silva.

tendo como inegável sua respeitosa trajetória e sua forçosa identidade evangélica, percebia o seguinte sentimento dos comentaristas matutinos: era necessário valorizar de forma assintosa o voto Marina. era necessário engessar o voto Marina. era necessário prender os votos voláteis da Marina. tática pra isso: enaltecer a força da importância do voto de cada um. propagam Marina como a maior vencedora da eleição. qualificando o voto buscam amarrá-lo. todos os articulistas, colunistas e palpiteiros já identificaram dois grupos de eleitores da Marina. existem os anti PSDB, desiludidos com o PT, que enxergaram na Marina uma terceira via (e aqui a palavra se encaixa bem ao perfil dela ao perfil histórico do termo). Existem aqueles que compraram o coque, a saia, a postura de beata do interior, e ganharam junto o apoio recheado de mentiras e calúnias de pastores, padres e outros intermediários divinos.

levantam a Marina as alturas! não só mais Hosana!

O Mais Do Mesmo e Seus Paradoxos

acabou a peleia. para alguns certamente. para outros como um intervalo.

e tudo nos leva ao mais do mesmo: as pesquisas erraram mais uma vez; as questões morais e religiosas dominaram as leviandades contra uma candidata identificada com a esquerda; alguns votos que ninguém declara somam milhões e deixam todos perplexos. de clodovil a tirica. alguns caciques não conseguem mais o que conseguiam antes. a transferência de votos serve pra uns e não para outros.

a perplexidade de alguns na interpretação do jogo eleitoral, parte do entedimento que o voto e a escolha racional de cada eleitor segue uma linearidade. Não.

o que mais se pode perceber é um comportamento multifacetário, com várias váriaveis. é um paradoxo dizer que o mesmo eleitor ignorante e alienado que vota em um palhaço debochado em são paulo, se comporta de modo responsável e maduro prolongando o debate presidencial até o fim do mês: ou é uma, ou é outra coisa! é um paradoxo dizer que os cariocas se cansaram de césar maia, e agora querem crivella, garotinho, wagner montes e bolsonaro. é um paradoxo dizer que o povo alogoano acordou e deu um basta em Collor, e opta pela continuidade de Teotônio Villella a frente do Estado.

é tudo um paradoxo. cabe várias interpretações do mais do mesmo!